Tentarei ser sutil que nem batida de trem, que nem fogo se alastrando ou que nem minha noite fria de setembro. Para ser mais exata, dia 30. Foi exatamente o dia em que a sutileza deu lugar ao soco que atingiu a boca do meu estômago às 23:39. Eu bati os olhos no meu grande amor e senti essa vontade quase estranha demais que me fez puxar uma conversa. Foi bem coisa de destino, entendem? Eu simplesmente senti em todos os meus poros que meu mundo inteiro iria desabar naquele momento. Maldito pressentimento que eu não deixo de ter sempre que esbarro em confusão. Malditos sinais que eu insisto em não seguir. Maldito foi o chão que tremou e a ventania que levantou meu corpo no ar e tirou meus pés do solo como numa mágica um pouquinho mais bruta. Foi o momento em que eu soube que iria me apaixonar.
- Acorda brasil! Eu cheguei - eu falei com um sorriso vibrante no rosto, ignorando todos os alertas que me diziam para não ir falar com aquela pessoa específica.
Ok, eu sei o que você tá pensando. Quem diabos começa uma conversa normal desse jeito? Ninguém. Acontece que eu não era normal e por algum motivo incompreensível, meu grande amor deu risada.
Isso mesmo, deu risada. Mas não riu de mim, riu comigo. Quase como se pudesse me olhar com aquela sobrancelha arqueada e um sorriso curioso no canto dos lábios como quem diz "O que te deu, belezinha?"
- Acordei - meu amor disse de forma preguiçosa - Você é bem animada pelo visto.
Mal sabia meu amor que de animada mesmo eu não tinha nada. Quer dizer, eu era sim aquela menina eternamente apaixonada dos contos de fadas cheios de princesas. Mas naquele dia específico eu estava prestes a afundar na minha própria ilusão. E foi aquela conversa que me salvou. Ironia do destino, eu sei. Mas que bela ironia, porque meu amor era estonteante. O tipo de desenho perfeito que não olharia para mim, ou não me daria a mínima bola. Mas era o Karma. E caramba, o karma veio em uma forma linda.
- Deve ser a vibe - dei de ombros - vibe do sono
Ok, eu sei que isso também não foi bonito. Quem diabos joga piadinhas desnecessárias na primeira conversa? Eu estava acostumada a esperar até o terceiro encontro para se quer prender o cabelo. Mas naquele dia, eu estava completamente fora da linha da normalidade e meus caros, não tinha a menor graça. Mas é claro que meu amor deu aquele sorrisinho sem graça como se estivesse me analisando inteira.
Bem comédia romântica, eu sei.
- Também estou nessa vibe então - ele disse sem mais delongas e eu quase engasguei com a minha própria saliva quando notei que ele ainda não havia terminado aquela conversa por aí - Preciso de pessoas animadas na minha vida, já que eu sou eu.
Não me entendam mal, eu estava carente. Era um daqueles dias em que nada deu certo e você só tira sua armadura e espera o teto finalmente caia na sua cabeça. Como eu poderia imaginar que ao invés de gesso, cairia o amor da minha vida? Eu agi como qualquer menina no ápice do seu sono que espera respostas curtas e grossas. Eu não fazia ideia de que meu amor concordaria comigo.
Mas calma lá, o que queria dizer "eu sou eu". Deixei minha cabeça virar para o lado como eu sempre faço quando vou pensar demais em alguma coisa que me dizem e antes que eu pudesse travar minha língua, perguntei-lhe:
- O que seria "eu sou eu"? - arregalei os olhos quando percebi que era uma pergunta completamente inapropriada, mas ao invés de virar as costas e encerrar o assunto, meu amor abriu um sorriso interessado e começou a ser o alguém especial que me fez apaixonar.
Tá, tudo bem.. vocês ainda não se apaixonaram pelo meu amor. Mas é que nessa ponta da conversa, eu também não tinha noção do furacão que estava me levando em direção ao amor. Mas já estava sorrindo com aquela cara de pastel enquanto prestava atenção.
- Ainda não tenho uma definição, os humanos não me decifraram - meu amor jogou uma piscadela na minha direção e meu sorriso se amplificou de orelha à orelha. Ele era tão retardado quanto eu.
- Vou chamar meus amigos alienígenas - soltei sem pensar duas vezes.
- Talvez eu me dê melhor com eles. Seres humanos são muito, sabe.. - meu amor coçou o queixo pensando numa palavra que completasse sua frase. Mal sabia que eu completaria sua vida.
- Detestáveis? - perguntei. Meu amor balançou a cabeça positivamente.
- E coisas piores! - e soltou uma gargalhada genuína que fez meu coração pular uma batida. Mas que gargalhada apaixonável.
- Meus amigos verdes são mais mordíveis - eu cruzei os braços e deixei que meus olhos fitassem sua reação. Meu amor continuou rindo como uma criança.
- Eca! - ele exclamou, olhando-me de forma divertida - Deve ser uma meleca gosmenta.
- Deve ser que nem amoeba. Eu odeio! Uma vez grudou no meu cabelo e eu tive que cortar - falei sem motivo algum. Normalmente essa seria uma história a se contar depois de conhecer bem a pessoa, para sabe, ela rir da minha cara e eu não me sentir ofendida. Mas com aquela pessoa ali na minha frente, simplesmente foi a coisa mais normal do mundo. E ela riu da minha cara, mas eu nem liguei.
- Se fodeu - meu amor riu tanto que seus olhos ficaram pequenininhos. No início, até tentei fazer bico, mas acabei achando graça.
E foi com essa delicadeza de outro mundo que eu me apaixonei pela sua gargalhada na nossa primeira conversa.
Aham, você provavelmente deve estar se perguntando como uma conversa tão sem pé nem cabeça me virou ao avesso da cabeça aos pés. Mas eu te digo, o que se seguiu não fez nenhum sentido. Nunca fez. Nossa segunda conversa foi sobre poodles e acreditem ou não, meu amor não sabia o que era um poodle.
Eu estava me sentindo bem em conversar com alguém que rendesse minhas maluquices, então começamos a implicar um com o outro como se fizéssemos isso há anos.
- Olha só, me respeita hein - meu amor tentou manter a voz limpa, mas eu podia perceber em sua vibração que era apenas brincadeira - Perdeu a noção do perigo?
- Nunca tive - respondi de imediato. Jamais imaginaria que agora, enquanto me lembro, essa foi a resposta mais sincera que dei à meu amor na vida. Eu realmente não tinha noção do perigo e perigo estava parado na minha frente - Eu sou um poodle. Sou pequena mas sou brava.
- O que é poodle? - sua sobrancelha se juntou e um olhar curioso tomou conta de seu rosto. Minha boca caiu aberta, óbvio. Como alguém não sabe o que é um poodle? É apenas o cachorro mais bonitinho do planeta terra.
- Uma raça de cachorro. Que besta! - empurrei seu ombro de leve e meu amor arregalou os olhos e fixou seu olhar em mim dizendo:
- Ahhh, aquele peludo? - parecia que uma lâmpada interna havia realmente se acendido, porque meu amor emanou luz própria.
- Ele é pequeno e marrento - eu concordei.
- Posso te contar um segredo? - perguntou, desviando o olhar.
- Claro! O que é? Você tem medo de poodle? - revirei os olhos.
- Quando eu tinha uns oito ou nove anos, eu ganhei um cachorro. Eu tinha que escolher um nome, mas não fazia ideia do que chamá-lo. Então virei para minha mãe e disse: Mãe, ele é tãaaao peludo. Vai ser peludinho - meu amor soltou e eu imaginei de forma ilustrativa na minha mente o peludinho pulando em seus braços da forma mais adorável que você possa imaginar.
- O nome do seu cachorro é peludinho? - eu perguntei entrerisos.
- Não. Era. Ele morreu - meu amor manteve os olhos presos aos meus e eu senti meu estômago revirar. Meu sorriso se esvaiu.
- Ah não - murmurei - Odeio quando animais morrem.
- Eu chorei muito quando ele morreu. Ele era o melhor cachorro do mundo - meu amor continuou contando - Eu sempre brigava e mandava ele sair de perto quando tava irritado. Ele vinha e pedia carinho depois de um tempo. Me entendia melhor que qualquer um.
- Eu vou te dar um peludinho - soltei os braços e enfiei as mãos no bolso, suspirando.
- Depois dele eu fiquei pior - ele falou mais para si mesmo do que para mim. Tarde demais, eu havia escutado.
- Vou te alegrar - eu disse, forçando um sorriso largo. Eu odeio ver as pessoas tristes, me corta internamente.
- Daqui uma semana você já sumiu - meu amor pigarreou.
Eu sabia que não, e aquilo ali me incentivou mais ainda a prová-lo que estava errado. Meu amor não fazia ideia de que eu era a melhor pessoa no quesito "Não desistir" dos outros. E foi exatamente naquele momento em que meu amor eterno foi escolhido por mim, e eu prometi que não desistiria dele.
Um beijo doce, Alice.
- 22:07
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